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Publicada em: 26/11/2009 às 16h27m
Autor: Comunicação - CONFEF

Educação Física para uma vida saudável

A partir de 2011, todas as atenções do mundo esportivo estarão voltadas para o Brasil, com a realização da Copa do Mundo de futebol, em 2014, e dos Jogos Olímpicos, em 2016. Uma das expectativas que existem, em especial com relação às Olimpíadas, gira em torno da formação de uma geração vencedora nas mais diversas modalidades.

Uma das apostas mais freqüentes é na contribuição que as escolas podem trazer para a descoberta de novos talentos do esporte. Mas, para o presidente do Conselho Federal de Educação Física (Confef), Jorge Steinhilber, é um erro achar que só o trabalho com a Educação Física no ambiente escolar é o suficiente para formar uma geração de grandes esportistas. "Não é a função da Educação Física Escolar tornar um país uma potência olímpica de medalhas. O objetivo é a formação do cidadão para a educação e a saúde", destaca o especialista.

Nesta entrevista, o presidente do CONFEF fala sobre como estimular a prática esportiva entre jovens e crianças, do mercado para profissionais de Educação Física, das limitações decorrentes da falta de infra-estrutura nas escolas e por que o CONFEF elegeu os anos de 2009 e 2010 como o biênio da Educação Física Escolar.

"Os diretores, professores e pais não estão entendendo a importância desta disciplina. Com isto, entendemos que era necessário fazer um alerta com relação a este quadro", explica.

Folha Dirigida — O CONFEF elegeu os anos de 2009 e 2010 como o biênio da Educação Física Escolar. Por que?

Jorge Steinhilber – Não só no Brasil, mas no mundo inteiro, a disciplina Educação Física Escolar tem sido desvalorizada e, de uma certa forma, diminuída e retirada das escolas. A justificativa é a necessidade de abrir espaço para matérias como Filosofia, Sociologia, Informática, entre outras, o que demonstra, nitidamente, que dão um valor maior às disciplinas intelectivas em detrimento de uma outra que aborda questão de uma vida mais ativa e com qualidade. Além disso, algumas escolas particulares têm eliminado a disciplina Educação Física Escolar e aceitado como "freqüência" o fato de o estudante praticar atividade física em alguma academia ou clube, como se a disciplina se resumisse à prática de exercícios físicos. Percebemos que falta uma responsabilidade por parte do poder público para com a Educação Física Escolar. Os diretores, professores e pais não estão entendendo a importância desta disciplina. Com isto, entendemos que era necessário fazer um alerta com relação a este quadro. Por isto, elegemos os anos de 2009 e 2010 como o biênio da Educação Física Escolar.

Qual o objetivo do Confef ao chamar a atenção para este problema?

Nosso objetivo foi sensibilizar os governos, parlamentares e a sociedade sobre a importância da Educação Física Escolar. Buscamos levar as pessoas a compreenderem que esta disciplina existe e o valor que ela tem. Realizamos um seminário na Câmara dos Deputados, em maio deste ano, no qual discutimos a questão da Educação Física e do esporte. A sociedade ainda não desassociou a disciplina Educação Física do desenvolvimento esportivo. A maioria das pessoas entendem que é a Educação Física escolar que resolverá os problemas do esporte de alto rendimento, quando, efetivamente, a disciplina não vai dar conta disto. O seminário foi para sensibilizar os parlamentares. Isto desdobrou em outros seminários em assembléias legislativas estaduais ou Câmaras de Vereadores. E mais: encaminhamos para prefeituras e secretarias de Educação de todo o Brasil o resultado do documento que tiramos deste seminário. Procuramos deixar claro, de forma contundente, a posição do CONFEF de que a escola pode ser o berço de toda uma cultura para a prática de atividades físicas esportivas.

Como fazer isto?

É preciso levar a criança a perceber por que ela deve ter uma vida ativa. No caso, é preciso incentivar os alunos a desenvolverem uma série de atividades, mas não no sentido de se iniciar naquela atividade esportiva mas de vivenciar isto, até para tomar gosto e dar continuidade a este aprendizado. O ideal seria que as escolas tivessem locais onde pudessem oferecer diariamente a prática de exercícios e atividades físicas, não dentro da disciplina de Educação Física Escolar, mas no contra-turno, por exemplo.

Então, a seu ver, o principal compromisso da Educação Física nas escolas deveria ser o de desenvolver o gosto pela prática de atividades físicas?

Na disciplina Educação Física Escolar, sim. Se um jovem pratica um esporte, ele cumpre as regras somente para praticar aquele esporte. Não há nenhuma discussão na escola do porquê da regra. E o aprendizado deste tipo de valores é que vai contribuir para o desenvolvimento da criança como cidadão. Ela vai entender que respeita uma determinada regra de uma atividade esportiva porque precisa respeitar as leis. Há todo um contexto do que é dinamizado hoje para ser desenvolvido no futuro. Se trabalharmos na criança a consciência da importância da prática de atividades físicas, contribuiremos para que ela mantenha este hábito ao longo de sua vida e, certamente, para diminuir as doenças da modernidade, que são o estresse, a obesidade, os problemas cardiovasculares e o sedentarismo.

A finalidade da Educação Física nas escolas muda, de acordo com a faixa etária?

A disciplina Educação Física Escolar tem dupla finalidade, o que as pessoas, em geral, não entendem. Uma delas é muito voltada para o segmento até o 5º ano, ou seja, para a faixa etária até os 10 anos. Nesta faixa etária, a criança adquire a coordenação, o movimento, uma série de desenvolvimentos psicomotores destinados à aprendizagem. Em muitos casos, a criança não consegue escrever, por falta de coordenação motora. Um profissional de Educação Física é capaz de identificar este problema durante a aula e, a partir daí, fazer um trabalho multidisciplinar com este aluno para resolvê-lo. Nesta faixa etária, evidentemente, o foco não deverá ser o trabalho de conscientização para a prática de atividades físicas, que é a outra finalidade da disciplina.

Qual o papel da educação física escolar para formar a próxima geração de campeões olímpicos?

Indiretamente, a Educação Física Escolar acaba tendo uma responsabilidade em relação ao Brasil ser uma potência olímpica. Se a criança adquire o gosto pela prática esportiva, se adquire coordenação motora, automaticamente vai praticar e, desta forma, democratiza-se a prática de exercícios físicos. Assim, haverá um volume de pessoas participando e, em um cenário como este, a possibilidade de surgirem potenciais talentos é muito maior. Mas não é função da Educação Física Escolar tornar um país uma potência olímpica de medalhas. O objetivo é a formação do cidadão e educação para a saúde. Agora, se a criança compreende a importância e toma gosto pela atividade física, se a escola tem a oferta das diversas modalidades, a tendência é de que, ali, apareçam vários talentos, o que demanda uma terceira vertente, que é a de políticas públicas voltadas para desenvolver estes talentos através de equipes esportivas. É uma corrente de procedimentos e processos que acontece dentro da escola e que pode levar a isto, mas é falso dizer que a educação física escolar vai fazer com que os atletas brasileiros ganhem mais medalhas. Imagine que uma criança tenha uma aula de Português e, quando acaba, vai para uma quadra para praticar uma atividade Física em um calor de 40 graus com dezenas de outras crianças ao mesmo tempo. E, 10 minutos antes do fim desta aula, a criança é liberada para uma outra, de Matemática. Ela vai gostar desta atividade? Não tem como.

E como fazer da Educação Física uma atividade da qual realmente o estudante goste?

A disciplina de Educação Física não tem de ter o objetivo desta prática. A meta é a da conscientização, da pesquisa, da vivência. E se quero apenas permitir a vivência esportiva, não preciso promover a prática esportiva em si, mas apenas alguns movimentos. Em uma aula com 40 alunos, não tenho condições de promover a prática esportiva, mas apenas de motivá-los para a importância disto, na vivência e na pesquisa. E tanto posso fazer isto na sala de aula como na quadra. Isto de forma alguma elimina a necessidade de uma política pública no sentido de manter, posteriormente, um local onde a criança possa ter a prática desta atividade. De preferência na escola mas, se não puder, em um clube ou outro lugar.

As escolas não têm condições de ter espaços esportivos para todas as modalidades. Como lidar com esta limitação? O senhor é favorável a parcerias com clubes e organizações que tenham estes espaços?

Ouço esta mesma pergunta há mais de 50 anos. O que tem sido feito para mudar isto? Ficamos no discurso e não desenvolvemos uma política pública efetiva. Se conseguirmos fazer com que o parlamentar, o governo, a direção da escola e os pais percebam a necessidade desta prática, eles vão exigir uma quadra. Os pais querem que o filho aprenda Matemática para passar no vestibular, mas esquecem que o filho também deve fazer exercício físico para não ficar doente no futuro. E esta consciência ainda não foi desenvolvida e este é o trabalho que o CONFEF quer fazer nos próximos anos. Será que o Brasil tem recursos para promover uma Olimpíada? Não tem. Mas, se é positivo para o país, os recursos vão aparecer. Ou seja, quando se trata de algo prioritário, o recurso aparece. Da mesma forma, o dia em que se perceber que a Educação Física Escolar deve ser algo prioritário no processo educacional, todas as escolas, de alguma forma, terão este local para prática de exercício físico. Mas vamos para a realidade de hoje: a maioria dos clubes sociais, hoje, estão ociosos. Então, certamente, o governo pode fazer convênios com estes clubes para oferta de prática de exercícios físicos e atividades esportivas, claro, sem prejuízo da Educação Física Escolar.

Especificamente com relação aos professores de Educação Física, como o senhor avalia a formação que eles recebem nas universidades?

O que existe hoje não é um problema com a Educação Física e sim com a educação superior como um todo. O estudante sai mal formado do ensino médio e, ao entrar na faculdade, tem uma série de deficiências. Mas, não vejo a formação na Educação Física como um problema diferente das outras formações. Acho que a maioria delas não estão adequadas e não atendem às necessidades do mercado de trabalho. Estão vencendo os estudantes que buscam se atualizar e se especializar na medida em que estão na faculdade. Hoje, há professores de Educação Física em hospitais, em academias respeitadíssimas. A base está lá nas faculdades. Mas ela é suficiente para o desempenho profissional? Não, como em nenhuma outra carreira é.

O que faltaria nesta formação? Como se configura esta defasagem?

Há muita disciplina desnecessária, por uma questão tradicional. Na maior parte das profissões, principalmente da área de Saúde, a pessoa recebia a formação em uma linha profissional e, se quisesse trabalhar em colégios, fazia uma complementação pedagógica. A Educação Física, por sua vez, começou pela Licenciatura. Então, a matriz curricular da Educação Física sempre foi muito voltada para Pedagogia, didática e outras questões relacionadas ao ensino. E, de uma certa forma, as disciplinas mais científicas e voltadas para a área da Saúde eram mais negligenciadas. Um avanço foi a criação de duas formações: o bacharelado e a licenciatura. Isto abriu espaço para uma formação mais específica. O licenciado é exclusivo para trabalhar em colégios e o bacharel tem um grupo de disciplinas mais voltado para questões científicas, da área da Saúde e treinamento esportivo. Conseqüentemente, melhorou muito a formação no bacharelado. Há um bom equilíbrio, mas há algumas faculdades que têm disciplinas como prática de basquetebol, voleibol, que não seriam necessárias. Me lembro de uma época em que a Educação Física era praticamente considerada como um clube. O aluno fazia esgrima, basquete, vôlei, entre outros esportes. Por que, dentro de uma faculdade, é preciso praticar estas atividades? Eu preciso sim, é saber como ensiná-las, que movimentos levam à prática correta de cada modalidade esportiva. Estas são questões mais relacionadas à área científica do que à prática em si. Naturalmente, uma ou outra vivência é importante, mas não dá para ter um ano inteiro só praticando vôlei, por exemplo.

Como está o mercado de trabalho na área de Educação Física? Está em expansão ou saturado?

Diria que é um mercado farto, amplo, real e irrestrito. Hoje, 70% da população não pratica atividades físicas de forma sistemática. A ONU, a Unesco e todos os organismos internacionais voltados para a área da Saúde demonstram que existe a necessidade da prática de atividades físicas e de uma alimentação mais balanceada, para minimizar as doenças da modernidade. Então, a tendência é que as políticas públicas se voltem para a prática de atividades físicas. Se 70% não praticam, isto significa que há um contingente enorme de pessoas que precisarão de orientações deste profissional. Isto sem contar o tsunami que vem por aí, com a realização da Copa Esportiva do Exército, em 2011; a Copa das Confederações em 2013; a Copa do Mundo em 2014; e os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016. Tudo isto vai contribuir para um incentivo maior para a prática esportiva por parte dos brasileiros. Por isso, vejo o mercado de Educação Física como bastante promissor, evidentemente, para profissionais que sejam empreendedores, que busquem conhecimento, atualização.

O formado em Educação Física pode atuar em hospitais, clubes, academias, escolas, entre outros espaços. No caso específico dos que atuam na Educação, há o problema do salário dos professores, que ainda é, de forma geral, baixo. Os mais qualificados que se formam na área vão trabalhar nas escolas?

O que ocorre hoje, infelizmente, é que a empregabilidade ficou no órgão público. A maioria dos que procuram atuar em uma escola pública o fazem para buscar por um porto seguro. Mas, efetivamente, o desempenho do trabalho fica muito mais fora do âmbito escolar, mais uma razão pela qual elegemos o biênio 2009 e 2010 como Ano da Educação Física Escolar. É compreensão nossa de que, na medida em que a sociedade e o poder público valorizem esta disciplina como fundamental para a Educação, este profissional se sentirá mais valorizado dentro da escola e, com isto, efetivamente será possível despertar uma motivação maior. Evidentemente, temos o problema dos baixos salários, que não é da Educação Física, mas do professor, de maneira geral. Fala-se muito na importância de prestigiar a Educação mas o que menos se valoriza é o salário do professor. Mas vem ocorrendo uma melhora neste processo, pois os governos já perceberam que sem investir em Educação, não será possível alcançar o desenvolvimento.

O que é fundamental para uma política pública para a Educação Física Escolar?

Hoje, todos falam da necessidade de o Brasil se tornar uma potência olímpica. Mas, o que é ser potência olímpica? A leitura que se faz disto, em geral, é avançar no quadro de medalhas. Mas, é isto o que realmente importa? Talvez não. Um país potência olímpica, a meu ver, tem também de ser um país desenvolvido em Educação, em Saúde. É preciso aproveitar o tsunami de que o Brasil será uma espécie de capital do esporte nos próximos anos, aproveitar todo este envolvimento e canalizar isto para o que realmente é importante para o resto da vida. Se o Brasil ficar, até mesmo, em 1º lugar nas Olimpíadas do Rio de Janeiro, será um feito histórico. Mas, morre aí. Porém, se o Brasil se tornar uma potência olímpica de Saúde, de desenvolvimento socioeducacional, teremos um país desenvolvido para o resto da vida.

Fonte: Jornal Folha Dirigida - 19/11

 

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