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Afinal, atletas transexuais têm mais força que as jogadoras cisgênero?11/04/2018

Para uma transexual entrar no mercado de trabalho é uma verdadeira via-crucis. Elas enfrentam preconceito, desconfiança e muita rejeição. Mas o desafio pode ser ainda pior para aquelas que sonham em seguir carreira como atleta.

O esporte ainda é muito fechado para a diversidade sexual. Na maioria das modalidades, dirigentes e torcedores ainda são machistas e homofóbicos. Aos poucos, entretanto, o debate vai aumentando e os clubes vão se abrindo ao diferente. Mas a polêmica ainda pulsa.

Em 2015, antes das Olimpíadas do Rio, o Comitê Olímpico Internacional (COI) decidiu alguns requisitos para a inclusão de atletas trans nas competições mundiais.
Atualmente, elas não precisam fazer cirurgia, mas quem se declara do sexo feminino necessita manter o nível de testosterona inferior a 10 nmol/L por um ano. Os exames são feitos antes dos jogos, regularmente durante a temporada.

Com o fim das Olimpíadas de inverno, o COI deve atualizar suas regras sobre a participação de transexuais em competições oficiais. Especialistas, entretanto, não acreditam que as diretrizes mudem muito.

Mas a decisão não é consenso. Poucas esportistas chegam ao nível de alto rendimento e, por isso, há dificuldade em estudar e comprovar se o corpo que cresceu masculino leva vantagem, mesmo após a terapia hormonal.

No Brasil, a atleta Tifanny Abreu está no olho do furacão. Ela nasceu Rodrigo, mas completou a transição em 2015. Foi a primeira atleta trans a ser aceita em uma competição nacional: a Superliga de Vôlei.

A jogadora tem carreira antiga na modalidade. Disputou competições masculinas e, durante a terapia hormonal, não mudou de liga. Só depois, na Itália, participou de jogos em equipes femininas. E, de volta ao Brasil, em 2017, foi aceita no Vôlei Bauru.

Entenda a polêmica
De acordo com a pesquisadora Joanna Harper, do Providence Portland Medical Center, nos Estados Unidos, a diminuição da testosterona é suficiente para igualar as competidoras transexuais às mulheres biológicas, chamadas de cis. Esse teste seria satisfatório para provar que as atletas podem competir juntas.

“Terapia hormonal para mulheres trans normalmente envolve um bloqueador de testosterona e um suplemento de estrógeno. Quando os níveis do ‘hormônio masculino’ se aproximam do esperado para a transição, a paciente percebe uma diminuição na massa muscular, densidade óssea e na proporção de células vermelhas que carregam o oxigênio no corpo”, diz Joanna.

Ainda conforme pontuou a especialista, enquanto isso, o estrógeno aumenta as reservas de gordura, principalmente nos quadris. Juntas, essas mudanças levam a uma perda de velocidade, força e resistência — todos componentes importantes de um atleta.

Durante a terapia hormonal, Tifanny perdeu toda a potência e explosão. Se saltava 3,50m quando homem, agora pula, no máximo, 3,25m. O número ainda é alto se comparado a outras jogadoras de altura parecida, informou a profissional.

Tifanny tem 1,94m, a central Thaísa, de 1,96m, salta 3,16m, o mais alto do país. Mas, fora daqui, a italiana Paola Egonu alcança os 3,36m, e a chinesa Ting Zhu, 3,27m. Wallace, oposto da seleção masculina, mesma posição de Tifanny, chega aos 3,44m.

Segundo Regis Rezende [CREF 004202-G/GO],  professor de Educação Física, fisiologista, pós-graduado em voleibol e especialista do caso Tifanny, os estudos mostram que em alguns esportes a performance de atletas submetidas à terapia hormonal é inclusive abaixo de mulheres cisgênero.

Existe uma analogia para explicar: é como se fossem carros grandes com pequenas engrenagens. “Razoável afirmar que os estudos não têm apontado vantagens para atletas transexuais em comparação a atletas cisgênero em nenhum estágio de suas transições. Ainda assim notamos a resistência na aceitação dos estudos vigentes”, conta o professor.

Mas para as pesquisas evoluírem, será necessário perceber as individualidades de cada esporte. Na ginástica olímpica, por exemplo, é desvantagem para a atleta transexual ter peso e densidade óssea diferentes.

No voleibol, também não existe vantagem em ser alto, pois mulheres cisgênero também podem chegar perto dos 2m de altura. Além disso, devemos lembrar que nem todas as trans são grandes e fortes, assim como as pessoas que se identificam com seu gênero têm composições corporais diferentes.

Repercussão
A presença de Tifanny na Superliga recebe críticas de todos os lados. Algumas falas recentes chamaram muito a atenção de quem acompanha o caso. Primeiro foi o médico João Granjeiro, coordenador da Comissão Nacional Médica da Confederação Brasileira de Vôlei, em entrevista ao jornal O Globo. “Nenhuma mulher, a não ser que tenha usado testosterona de origem externa ao organismo, conseguiria formar o mesmo corpo. Não se trata de ser homofóbico ou politicamente incorreto. O assunto é necessário”, disse.

Tandara, uma das melhores jogadoras do Brasil no momento, e a medalhista olímpica Ana Paula Henkel também se juntaram ao coro:

A inclusão de pessoas transexuais na sociedade deve ser respeitada, mas essa apressada e irrefletida decisão de incluir biologicamente homens, nascidos e construídos com testosterona, com altura, força e capacidade aeróbica de homens, sai da esfera da tolerância e constrange, humilha e exclui mulheres"
Ana Paula Henkel

Para Regis, a resistência das atletas em abraçar Tifanny está na luta histórica das mulheres em conquistar seu lugar nos esportes. Mas, pontua ele, essa busca não pode excluir indivíduos e muito menos caracterizar transfobia.

“O direito de expressão é cabível a todas as atletas envolvidas. Mas manifestações como essas descaracterizam a proposta de igualdade e a tentativa de qualquer fair-play que os estudos possam trazer”, diz o professor de Educação Física.

A central e bicampeã olímpica Thaísa, em contrapartida, afirmou respeitar a decisão dos órgãos competentes. “Não cabe a mim falar se ela pode jogar ou não. Não tenho que achar nada. Não defino nada, não estudei para isso e não estou ali para julgar”, afirmou.

O técnico da seleção brasileira de vôlei feminino, José Roberto Guimarães [CREF 014602-G/SP], disse achar Tifanny uma jogadora interessante e que não tem problemas com a permissão. “Se ela é elegível para o COI, FIVB e pela CBV, ela é elegível para qualquer coisa”, explica.

Presença historicamente baixa nos esportes
Para a secretária de articulação política da Associação Nacional de Travestis e Transexuais, Bruna Benevides, poucas transexuais se aventuram nos esportes porque a sociedade homofóbica acaba as excluindo. Na escola, antes da transformação, os homens afeminados são proibidos de jogar com as meninas e dificilmente vão participar dos jogos com outros meninos.

“Diante deste panorama, o esporte não tem sido um lugar acolhedor. As mulheres trans e travestis ainda sofrem de um estigma muito grande no Brasil. Não à toa, 90% da nossa população ainda é jogada compulsoriamente para a prostituição”, afirma Bruna.

Mas de acordo com Regis, ambientes esportivos deveriam ser espaço de interação e inclusão social e podem servir como local de enfrentamento ao preconceito. “O processo de transexualização é complicado, causa várias mudanças ao corpo, alterações hormonais que influenciam na vida diária. A prática de atividade física é importante no processo de reinserção da pessoa transexual”, explica.

Um dos argumentos de quem é radicalmente contra a presença de transexuais nos esportes é de que os clubes e times dariam mais chances às mulheres trans, em um processo de substituição das mulheres cis.

“É uma falácia desonesta. É absurdo. A quantidade de atletas trans é ínfima em relação à quantidade de mulheres. A própria comunidade de transexuais varia em torno de 1,1% da população, como é possível que em algum momento teremos tantas atletas trans para disputar em pé de igualdade?”, questiona a secretária.

Para ela, a luta principal do movimento é para que se reconheça a identidade de gênero e aceite as trans como as mulheres que são.

“Na síntese, essa discussão é um caso de transfobia motivada pela falta de informação. O fato de as pessoas não pesquisarem, não saberem ou não quererem entender também é preconceito. As transexuais ainda são expulsas de casa cedo — a média é de apenas 13 anos. O Brasil também é o país que mais mata transexuais e travestis e mais consome pornografia trans. A sociedade, agora, está começando a vê-las fora dos espaços comuns, e isso tem causado toda essa polêmica”, conclui Bruna.



Fonte: Metrópoles